abril 18, 2017

Basma

Eu saí – eu fugi do país para varias razões. Não quero colocar burqa – eu não quero colocar burqa para que as pessoas me respeitem. Coloquei para trabalhar porque se eu sair com o cabelo à mostra, meu chefe vai me olhar querendo tirar vantagem. As mulheres sofrem muito. Eu nasci numa família bem liberal; meu pai foi professor de filosofia. Eu não consegui ser uma mulher submissa, mas tentei ser esta tipa de mulher. Não falava nada, fui humildada. Até um dia eu fui machucada e fui ao hospital com as feridas… Batido, queimado, ameaçada… Ainda tenho as cicatrizes. Eu fugi a violência contra as mulheres; fugi porque tinha medo pela minha vida. Minhas experiências de desigualdade não são únicas. Tinha uma que engravidou do namorado – ela não podia casar ou abre uma casa porque ele não tinha dinheiro. Quando o pai dela descobriu, matou sua filha… Ele não entrou a prisão, pois é um crime de honra. Não é somente politica. É tudo. Vem da cultura, da politica e da religião que permite a discriminação das mulheres, pois o homem pode tudo; você – a mulher – tem que ficar calada. Foi a policia que me disse para fugir.

Fui pra França pela barca porque estava com o visto, mas só fique 2 meses. Não consegui trabalho por causa da crise econômica muita pesada. É muito difícil achar trabalho. Quando acabou meu dinheiro eu cheguei ao Brasil sem um real, sem falar nada português em maio de 2015. No avião encontrei uma marroquina. Ela queria alguém que falasse francês para ficar com os filhos dela para que eles entendessem francês. Fiquei com ela só um mês, porque ganhava pouco. Trabalhava 24h por dia, sem descansar, morava com ela. Todos os dias. Ela tirou vantagem do fato deu não falar a língua e não conhecer ninguém. Eu saí da casa dela, e fui pra ADUS. Falei da minha vida, e que tinha formação em gastronomia – sou chefe da cozinha. Eu pedi se eles poderiam me ajudar a achar trabalho, mas não conseguiram, então fui pra Mesquita Brasil. Não tenho religião, mas eu fui porque eles falam árabe. O Imam me ajudou a conseguir um quarto pra alugar no Brás.

Eu saí e consegui trabalho em um restaurante libanês por quilo na Paulista. Chefe da cozinha árabe. Fiquei 7 meses na restaurante. É pra eles que eu aperfeiçoei a comida de todos os pratos cada dia. Depois de começa falar a língua eu voltei pra ADUS que me encaixou no Bazar que fazem na Vila Madalena. A ADUS oferece pouca ajuda para quem tem uma necessidade muito grande. Para as famílias com mãe, pai e filhos, deveria ter cesta básica, aluguel barato, escola pras crianças, mais trabalho. Estas coisas ajudam! O bazar não ajuda muito; eu vendi um R$ 1000 e acabou. Ninguém me ajudou. E de lá eu saí e aluguei uma barraca que vi na Faria Lima e achei uma barraca na Itaim Bibi igual ao que tem na Faria Lima para vender a comida marroquina. Eu trabalhava dia e noite, fazia a comida na casa. Aprendia a língua com livros, internet… Tinha aprender a língua para gerenciar minha empresa. Foi difícil, mas não impossível. Eu perseverei e expandi o Banarabi Culinária Árabe. Eu apresentei da palestra TED Talk em novembro, e fiz uma entrevista da TV Globo bem recentemente.

Eu estou criando uma cooperativa da comida árabe para mulheres refugadas. Eu não tenho uma cozinha para a produção e precisaremos um lugar barato. Ajuda para comprar a geladeira, fritadeira e chapa. Não tinha o dinheiro para comprar isso. Preciso de ajuda. E ali, vou trazer as mulheres que têm crianças e não podem trabalhar todos os dias pra produzir a comida, e vender isso às lanchonetes, os bares, restaurantes por quilos, etc. E as pagam. A cozinha será um lugar de produção cooperativo para as mulheres refugiados em necessidade. Principalmente eu quero trabalhar com mulheres que têm filhos e não podem trabalhar todos os dias, mas precisam o dinheiro. Elas precisam de algo para fazer no dia-a-dia, não soluções pontuais. É alternativa do modelo bazar onde se for para participar uma vez, e acabou.

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