março 28, 2017

Maher

Antes dos americanos invadirem, minha família morava em uma pequena cidade no Iraque. Anteriormente vivávamos em Bagdá, mas mudamos quando meu pai procurou trabalho em outro lugar. A vida era muito boa. Nos sentíamos seguros. Eu lembro de morar com minha mãe, e meu pai voltando para casa apenas nas sextas-feiras ou nas férias. Nunca trancamos a porta. Às vezes viajávamos muita tarde da noite à outra cidade, e nunca precisamos nos preocupar com nossa segurança. Ninguém nos questionava. Nossa vida era muito simples e cultivávamos nossa própria comida no jardim. A vida era boa. Eu estava estudando e comecei em uma nova turma, em uma escola que ensinava profissional de elétrico. Eu planejava estudar outra coisa, mas meus pais não me permitiram. Quando a guerra começou, não houve impacto significo em nossa cidade. O povo estava realmente feliz; acreditavam que o Iraque se tornaria um novo Dubai – e haveria muito dinheiro. Era o nosso sonho. Mas a sociedade quebrou. As pessoas começaram a roubar casas e os bancos. Não havia polícia. Não havia nada. Quem tivesse armas, controlava a cidade. A violência entre culturas regionais diferentes iniciou. Em minha opinião, não precisávamos da democracia. Nós não estávamos prontos. 14 anos depois, a vida iraquiana ainda é caos. Ninguém consegue controlar.

Saí do Iraque em 2009 e fui à Síria para estudar o desenho web, e eu comecei trabalhar 03 anos depois. As pessoas me perguntavam constantemente: “O que você está fazendo na Síria? Temos uma guerra. Por que você mora em um bairro que apoia a oposição?” Eu não poderia continuar vivendo nesta situação perigosa, e nem poderia continuar aguardar para mudar para uma cidade mais segura. Eu não queria voltar para o Iraque. Aprendi que era fácil obter um visto para a Tailândia. Eu não tinha muitas opções; tantos outros países se tornaram inacessíveis para os iraquianos. A Tailândia foi boa, mas eu trabalhava 15 horas por dia – meia-noite até 15h. As horas foram difíceis. Depois de um ano, eu precisei renovar meu visto, mas não tinha o dinheiro para pagar as taxas. Eu disse meu chefe que eu procurasse outro emprego, mas ele me pediu ficar, pois cobrisse o custo. Chegou a hora, e ele não pagou. Ele alavancou a situação contra mim; me disse que eu não conseguiria achar emprego em outro lugar agora que eu estava sem documentação, pois ninguém me contratasse. Eventualmente, minha família, que chegou à Turquia, me pediu para voltar para que estejamos juntos novamente. Eu concordei porque não conseguia renovar minha documentação tailandesa e social agitação na sociedade se tornou mais comum.

A pessoa que me entrevistou do Departamento de Justiça do Brasil pensou que eu vim para o país para ferias porque eu cheguei com um visto turista. Ele perguntou repetidamente por que eu não poderia voltar para meu país. Eu vim porque não tinha outra escolha. Encontrei alguns brasileiros que me chamam de terrorista ou ficam longe de mim porque acham que eu tenho uma bomba. Eu encontrei uma mulher brasileira através da internet e nos namoramos. Ela finalmente informou sua família sobre nosso relacionamento e que disse: “Cuidado! Não saia com ele – ele é muito perigoso. Ele veio matar todos os brasileiros!” Sua família me bloqueou em seus telefones. Eu tive os problemas de percepção semelhante na Turquia e na Tailândia, pois as pessoas não se aproximavam de mim. Eles me percebem como ameaça porque eu sou árabe. Na verdade, eu não sou um muçulmano praticante, mas ainda o preconceito permanece. Tudo o que precisam ver é o meu rosto. Às vezes eu tentava dizer que eu era turco às pessoas na Turquia e na Tailândia, mas eles imediatamente rejeitaram a idéia e me chamaram árabe só porque olhavam para meu rosto.

Agora estou procurando por trabalho. Eu achei trabalho em um hotel, mas não me contratam porque não tenho meu RNE. Ainda estou aguardando a decisão do CONARE. A burocracia de todos esses países pune os refugiados. Preciso do documento porque, depois de o ter, terei residência. Eu quero estudar alguns cursos na faculdade local, mas não poderia me matricular sem o RNE. Até que eu o receba, não posso viajar para fora do país, não consigo solicitar a Carteira Nacional de Habilitação, não consigo comprar convenio, não consigo abrir uma conta corrente exceto do Banco Itaú, nem posso achar trabalho em minha área profissional de desenho web. Parece que a sociedade não confia em você se não tem a documentação. Eu sinto que muitas pessoas carregam algumas fobias. Acho que eu não poderia nem me casar e me sentir seguro com ela. Tudo o que eu quero é um lugar para chamar de lar. Eu só quero um lugar para ficar. Quero deixar a percepção de ser considerado perigoso. Mas, não foi tudo ruim. Eu vi mais países, aprendi mais línguas e morei em mais culturas do que a maioria. Minhas opiniões mudaram para o melhor.

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