janeiro 27, 2017

Monica

Como imigrante, você chega a outro país e se depara com outro idioma, costumes, tradições, clima, geografia e idiossincrasias que não são os seus. E precisa se adaptar para não sofrer. Muita gente não sabe dar valor à condição de ser emigrante. Ninguém imagina a dor que sentimos todos os dias. Em meu caso, estar longe de meus avós, que são meus mestres na vida – meu avô Eduardo tem 87 anos, e minha avó Luisa, 84 anos. Cada um tem sua história, e cada um deixa algo seu para trás… Eu deixei meus avós. Deixamos uma história e uma vida na Bolívia que eram muito comuns. Eu gostava de trabalhar em TV e rádio. Eu tinha carteira registrada e estava fazendo minha licenciatura em educação e comunicação. Abandonei tudo… Deixei os amigos, ficamos longe em nosso canto a engolir nossas lágrimas. Foram muitas lágrimas por saber que nada podemos fazer em um país que não é nosso. Mas a vida continua, porque afinal fui eu que parti. A vida muda um pouco para todos, mas mudou completamente para mim.

Ainda eu me considero uma mulher abençoada. Sou Mónica. Sou mãe, filha e mulher imigrante. Graças a Deus todos da minha família moram aqui. Tenho a meu lado minha mãe, Victoria, que cuida de mim, meus filhos e minhas irmãs. Tenho dois tesouros aqui na terra, meus filhos Kenny e Brytany, que nasceram em São Paulo. Eles são minha motivação por estar no Brasil.

Se compararmos a cultura machista na Bolívia com a cultura brasileira, no meu país, embora existam leis, decretos e programas a favor das mulheres, eles não são respeitados como no Brasil. Conforme dados da Organização Pan-Americana de Saúde, a Bolívia é o país latino-americano onde se concentra a maior violência física de gênero contra as mulheres. É muito preocupante. Do meu ponto de vista, o machismo existe sem fronteiras; a violência contra a mulher é um fenômeno universal que permanece presente em todas as classes sociais. De minha família cristã eu sempre segui os escritos bíblicos, como o salmo 82:3: “Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente com o aflito e o desamparado”. Foi assim como se iniciou minha militância.

Desde muito jovem eu trabalhava em defesa dos direitos das crianças e adolescentes. Atualmente eu sou conselheira imigrante no Conselho Participativo Municipal da minha subprefeitura de Ermelino Matarazzo e estou em meu segundo mandato. O Conselho é um organismo autônomo da sociedade civil que funciona para exercer o controle social e assegurar a participação no planejamento e fiscalização das ações e gastos públicos. Como imigrante, não foi diferente participar ativamente em todas as reuniões sobre ações e planejamento do bairro Ermelino Matarazzo. Eu sempre falo das demandas do bairro e também falo dos imigrantes – nós, como munícipes, temos os mesmos direitos de ocupar espaços e de desfrutar da estrutura esportiva e de recreação. Nosso conselho definiu três metas prioritárias, que apresentamos à Prefeitura de São Paulo; entre elas está a criação de uma Casa da Cultura e de novos Centros Educacionais Unificados (CEUs). Eles fornecem equipamentos públicos voltados à educação, os quais beneficiam todos os brasileiros e imigrantes de Ermelino e Ponte.

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