outubro 31, 2016

Pilar

Eu cheguei ao Brasil duas vezes. Na primeira eu vim porque fui transferida pela empresa Cadbury, onde trabalhei por quase 18 anos. Em 2001, morei no Peru por um ano, e depois morei na Venezuela por outro ano. Em 2005, fui transferida para o Brasil pela empresa para ser gerente de produto da Trident, e foi nesse período que conheci um brasileiro, o Marcelo, através do meu trabalho. Começamos a namorar. Marcelo foi morar na Venezuela, e eu voltei para a Colômbia; ficamos um ano e meio namorando a distância. Quando ele voltou para o Brasil, a empresa estava montando a estrutura regional da América do Sul. Estavam colocando todo o pessoal do meu departamento em Cali. Quando o Marcelo voltou para o Brasil, eu falei: “Vamos decidir se nos casamos ou não, para podermos definir tudo…”. Resolvemos nos casar. Então, eu falei para a companhia: “Vou me casar, podem deixar todo mundo no Brasil”, porque, nessa época, o Brasil era a base da companhia na região. Foi quando entrei de novo no Brasil, em 2008, já casada com o Marcelo.

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Oito anos depois e temos duas filhas que nasceram no Brasil – em 2009 e em 2011. Elas foram registradas como colombianas dois anos depois, pois no ano seguinte ao nascimento da minha segunda filha decidimos passar um ano na Colômbia. Eu estava desesperada naquela época. Quando voltei da licença maternidade, tinha duas filhas. São Paulo é difícil sem apoio. Os pais do Marcelo moram numa cidade a quatro horas daqui… E meus pais moram longe. Faltava família. Agora estou aqui com as meninas. Voltar para São Paulo sem emprego é uma coisa totalmente diferente de viver aqui trabalhando e cuidando dos filhos. Estou feliz em casa com as meninas. Acho que não quero voltar a trabalhar enquanto elas ainda forem pequenas. Nesses dias estive pensando que quero arrumar algo para fazer na segunda metade da minha vida. Pensando na velhice… Meu pai acabou de falecer, e graças a Deus minha mãe trabalha. Ficar sozinha em casa sem fazer nada não é bom. Mesmo que não seja remunerado, não sei, mas quero arranjar algo para fazer.

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Talvez eu faça um curso de design de interiores que dura dois anos. É um tema que eu gosto, mas ao mesmo tempo me dá medo porque acho que montar um negócio é muito difícil. No começo pode ser muito trabalho para pouco retorno. Outra ideia que acho linda seria colocar em livros todos os desenhos que nossas filhas fazem para que durem para sempre, e acho que esse pode ser outro projeto para trabalhar. Ainda não sei, estou pensando… Por enquanto falei para um vizinho que dá aulas de violão para me dar aulas, me apresentar à música brasileira, pois não conheço tanto. Também acabei de fazer um curso de fotografia, pois sempre gostei de fotos, e sempre tirei um monte de fotos. Comprei uma máquina boa há dois anos, e ela tem tantas funções que não sei usar. Eu queria aprender a tirar fotos melhores e aprender mais sobre fotografia mesmo. Se isso se tornasse uma fonte de renda, seria ótimo. Também estou fazendo mosaico, porque eu não gosto de ficar parada. Enfim, não quero ficar parada.

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Assistindo a um seriado sobre o narcotráfico, estive pensando sobre a Colômbia recentemente. Eu tive contato com a guerra civil de longe e de perto. Na verdade, faz muito tempo. Quando eu era criança, minha irmã namorava um menino cuja irmã mais nova era minha melhor amiga. Sempre passávamos as férias de verão na casa de campo deles, que fica nas montanhas perto de Cali. Um dia estávamos brincando de esconde-esconde nos cafezais, que eram muito bons como esconderijo, quando alguém gritou: “Rápido! Rápido! Vão para casa que vai passar a guerrilha!”. Corremos para casa, fechamos tudo e vimos passar caminhões cheios de homens fugindo para as montanhas. Eles chegaram a um povoado pertinho do sítio e o tomaram. Ouvimos o “ratatatá!” das armas. Muitos mortos… Quando meus pais ouviram a notícia de que havia conflitos na região onde suas filhas estavam, quase morreram de susto.

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